1 de out de 2017

AS PESQUISAS E O RABO DO GATO

Confesso, tenho uma grande simpatia por Arraes, em especial por um tipo de inteligência que ele possuía, uma espécie de ceticismo dialético espontâneo. Não era fácil enganar Arraes, ele não era seduzido por marqueteiros (místicos ou pseudocientíficos), pesquisas ou por narrativas fáceis. Arraes tinha seus próprios critérios de julgamento.
Recentemente vi muita gente se contorcendo para explicar por que Lula continua favorito nas pesquisas e o significado disso. Caso Arraes estivesse vivo para comentar daria uma boa gargalhada e diria que essa pesquisa não significa nada que tenha relevância para a eleição. Ele estaria certo, certíssimo.
Vou usar um pouco de dialética hegeliana para tentar explicar o que Arraes diria em uma gargalhada.
A opinião pública, ou seja, a opinião capturada por uma pesquisa com métodos estatístico, é qualitativamente diferente da opinião de uma única pessoa. Quando se torna multidão ocorre uma transformação qualitativa e mudam as leis e os princípios que regem os fenômenos. A dinâmica do comportamento mental individual é diferente do da multidão. A inteligência como conhecemos, reflexiva, que se desenvolve num processo dialético de interação com outras opiniões, é inócua para a multidão. Tentar explicar o comportamento da multidão com os mesmos princípios da inteligência humana é como tentar compreender um formigueiro estudando uma única formiga.
Assim, nenhum comportamento individual ou julgamento moral é válido para ser usado na multidão. Não existe um “cinismo prático” tipo “rouba mas faz” e nem um “reconhecimento pelas conquistas”. Não é isso, esses são valores de uma outra escala de análise, a psicológica e moral.
As pesquisas de opinião mostram algo peculiar, entretanto, precisam ser vendidas pois são produtos, e para serem vendidas precisam ser úteis, mesmo que a utilidade seja apenas a de iludir com uma áurea científica.
Então, o que é medido pelas pesquisas? Que fenômeno elas explicam?
Como gosto de felinos vou usar um para explicar. Imagine que o gato seja o humor da multidão, a essência do humor, e o movimento do seu rabo seja o fenômeno capturado pelas pesquisas. Bem, o rabo pertence ao gato, é gato, entretanto existe gatos sem rabo, mas não rabos sem gatos. O rabo pertence ao gato, mas não comanda o animal que pode até não o ter ou não usá-lo. Pelo rabo é possível conhecer algo do gato, mas não tudo, na verdade muito pouco. Um cientista observando apenas o rabo poderia chegar a inúmeras conclusões equivocadas. O gato agita o rabo de determinada forma quando está caçando. O cientista conclui: “o gato está pegando um rato”, mas gatos as vezes agitam o rabo quando dormem, quando de fato ele estão apenas sonhando com uma caçada.
O fato de conhecer o fenômeno não implica em conhecer a sua essência, mas apenas uma manifestação dela.
Nas pesquisas de opinião converte-se o fenômeno em essência para ser melhor compreendido e vendido. A multidão cria um rosto, transforma-se em pessoa, faz julgamentos morais e éticos, tem personalidade pois assim o produto torna-se útil.
O todo torna-se a mínima parte, o rabo torna-se gato, inteiro.

O debate continua.

11 de set de 2017

EU AMO BELO JARDIM

Meu pai morou em Belo Jardim de 1914 a 1927, treze anos, junto com minha avó, Dona Nazinha, na casa do tio, Abílio de Barros Correia. Cresceu com Abaeté e Amaury. Foi para o Rio de Janeiro antes da emancipação, há 90 anos. Eu fui seu único filho que morou na cidade, de fins de 1975 ao início de 1980, cinco anos. O que tenho em comum com meu pai? Fomos adolescentes na mesma cidade, no mesmo ambiente.
Hoje faz quase quarenta anos que estou longe e como ele fazia, sempre coloco Belo Jardim nas minhas histórias, minhas aventuras, meus pensamentos. As vezes visito nos sonhos as ruas, não as de hoje que estão no Google, mas as do meu tempo de molecagem, vejo minha mãe, minhas professoras (Dona Olindina) e amigos que desapareceram como Everaldo Gordinho. Acordo e percebo que mesmo ausente, faço parte desse lugar.

5 de set de 2017

VIVA A DEMOCRACIA OU KAUTSKY VIVE!

"Quando o PT chegou ao poder em 2002 decidiu destruir o capitalismo 'por dentro'. Então foi engolido, digerido e agora excretado"
Vejo hoje um retorno a ortodoxia dos debates da esquerda do fim do século XIX: reforma x revolução, Lenin x Kautsky. A "reforma", ou seja, a convivência (nem sempre harmoniosa) com o capitalismo é incerta, não raras vezes é frustante e gera, imperiosamente, mais democracia. Essa é a visão de Kautsky. A revolução é certa e retumbante, golpeia o capitalismo mortalmente e gera, também imperiosamente, regimes distorcidos, bizarros, inimigos da democracia, ditaduras (proletárias ou não, geralmente não). Essa é a visão de Lenin.
Infelizmente não existe uma "manga do meio" como diria Dona Adélia, minha avó, um atalho, uma saída híbrida ou simplesmente adoçada como pensou Gramsci. O fracasso da URSS mostrou as limitações dos processos revolucionários. A experiência do PT no Brasil demonstrou claramente o fracasso de caminhos heterodoxos mistos. Pessoalmente, no pleno domínio dos meus 53 anos, me declaro um ortodoxo de esquerda e abraço Kautsky e a democracia, com um atraso de 35 anos.

24 de ago de 2017

O CARNAVAL QUE PRECISO CONHECER

Já fui a muitos carnavais em Olinda, na verdade a todos desde 1983, mas nenhum tão maravilhoso quanto o imaginado pelo meu vizinho pentecostal.
Ele me contou. Fiquei horrorizado e encantado ao mesmo tempo. Ele descreveu um ambiente pervertido, pecaminoso, promíscuo e liberado, onde ninguém é de ninguém, sexo corre frouxo e o Satanás desfila num carro alegórico.
Tentei dizer que tal lugar não era do meu conhecimento, mas ele insistiu que era real, lá em Olinda, e até me olhou diferente, como se eu estivesse escondendo algo.
Passei minha vida toda seguindo o próximo bloco, no aperto, suor, cansaço, cerveja quente e não sabia que existia outro carnaval, cheio de luxúria e prazer.

23 de ago de 2017

PRIVATIZAÇÕES DO SETOR ELÉTRICO

Privatizar o setor de distribuição e geração elétrica é um bom negócio? Parece ser uma discussão antiga e vencida pelo “sim”, mas não é.

Ainda vivemos um momento profundamente delicado, emocional, propício à decisões precipitadas e a engôdos . Os terríveis escândalos de corrupção que por pouco não destruíram a Petrobras ainda estão frescos nas mentes e nos sentimentos das pessoas. O comportamento cínico do PT e seus satélites subalternos, o total descompromisso com a sinceridade e a insistência até patética em negar o óbvio, evidente a qualquer espírito minimamente inteligente, fez evaporar a sua capacidade de persuasão.
A mentira foi tão generalizada e cínica que qualquer verdade dita, mesmo que boa e evidente, é contaminada pelo descrédito. Esse desastre não ficou restrito apenas o PT e os partidos satélites subalternos como o PCdoB, envolve toda a esquerda e está sendo aproveitada por interesses estranhos ao país.
O governo atual de Temer é produto de articulações irresponsáveis do PT e de Lula, que visavam apenas o poder e seu uso privado. Um acidente provocado pela condução desastrosa, incompetente e até criminosa de Dilma, engendrou o atual governo, que têm caráter provisório, precário, e não possui condições de tomar medidas como a privatização de um setor estratégico.
Nenhuma privatização deve ser feita com Temer no governo. Ele representa apenas uma ponte, uma ligação entre duas épocas. Deve manter a casa nas melhores condições para o próximo governo tomar as medidas necessárias.
Mas, mostrando seu caráter covarde e aproveitando a oportunidade criada pelo profundo abismo que o PT enfiou a esquerda, está tentando privatizar tudo o que puder, o mais rápido possível. E parece ser até fácil já que o setor elétrico é dominado por corporações com “pensamentos e influência de esquerda”. Para o cidadão médio, escaldado pela Petrobras, é melhor privatizar que entregar a uma quadrilha de ladrões. Não existe nenhum juízo econômico, político ou empresarial, apenas moral e o mal a ser evitado é o PT.
Não vivemos o frenesi privatista dos anos de FHC. Em países importantes que realizaram nos anos 70 e 80 amplas privatizações do setor elétrico, o processo está sendo revertido, voltando ao domínio do estado. Parece que hoje privatizar distribuição e geração de eletricidade não é uma boa ideia, foi reprovada pelo prática. Não é bom ir contra esse tipo de experiência. A inteligência manda parar, esperar essa nuvem escura criada pela irresponsabilidade do PT ser dissipada, e assim evitar julgamentos morais, emocionais.
Devemos buscar a racionalidade e a boa ciência. É importante debater melhor, com a calma necessária, antes de tomar decisões como as que Temer está tomando a toque de caixa.

25 de jun de 2017

O ÁLCOOL E OS PIT BULLS

Quem me conhece sabe que não bebo, ou melhor, bebo pouco e raramente. Vi muitas vidas queridíssimas destruídas pelo vício e não quero dar a mínima chance ao azar.
Há aqueles que libertam os seus demônios quando bebem ou usam outra coisa qualquer. É como andar eternamente com um pit bull amarrado ao calcanhar e a bebida afrouxa a corda deixando o animal livre.
Muitas são pessoas dóceis e delicadas sóbrias, violentas e arrogantes bêbadas. Famílias destruídas, filhos que odeiam os pais, vidas infernais, talentos desperdiçados, futuros jogados fora por meia garrafa de aguardente.
Quem anda com esses demônios amarrados ao calcanhar deve está consciente da responsabilidade, manter o laço apertado, não beber.
Fábio Assunção é um desses escravos dos demônios, anda com um pit bull amarrado dentro de si, é responsável sim pelos atos em Arcoverde, pois encher o copo é uma decisão consciente.
É uma pena, seu trabalho lá não é apenas ótimo, como necessário, precisamos dele.
Espero que sirva de lição.

11 de jun de 2017

ESTAÇÃO JABOATÃO


Recentemente tenho usando bastante o metrô e suas estações e confesso a vocês todos, gosto.
Ontem na estação Jaboatão assisti a uma briga entre duas mulheres que poderia facilmente transformar-se numa peça de Nelson Rodrigues ou numa ópera de Puccini. Uma de meia idade, a agredida, e outra mais jovem, a agressora. No centro do conflito um homem em comum, como sempre.
A mais jovem, muito agressiva, chegou decidida, já gritou um xingamento que não posso repetir aqui para não ser punido pelo Facebook (mas envolve sexo oral dito de forma chula), pegou a mulher mais velha pelos cabelos e tentou a lançar no poço no trilho. Foi impedida pelos passageiros.
Seguiu-se uma briga de uma agressividade que eu nunca havia visto, onde a mais jovem batia sem nenhuma pena, compaixão ou respeito, era só porrada e xingamento, assistido de forma quase passiva pelos seguranças da estação, até que um grupo de rapazes que parecia ser de um time de futebol resolveu interferir para evitar o assassinato. Um deles, alto e musculoso, pegou a agressora pelo braço e ordenou que parasse. A agressividade cresceu, ela olhou para o rapaz e disse:

- Dou nela e dou em você filho da puta! Venha pra apanhar!

Foram outros dois para poder sustentar a moça.
O que resolveu o problema foi a chegada do metrô que criou uma ponte entre as duas plataformas e a mais velha fugiu para a proteção da segurança da estação.
No embarque tomei o cuidado de ficar na mesma composição do grupo de rapazes e escutar a conversa:

- Ela bateu naquela velha e isso é covardia, uma pessoa nova não pode bater numa velhinha de 50 anos, disse um deles.

Bem, eu tenho 53 anos e fico muito alegre com isso.