21 de dez de 2017

OS OMBROS DO ASTRONAUTA

Ontem, conversando com um jovem candidato a intelectual, ele perguntou qual foi o fato que mais influenciou meus pensamentos, ao longo da vida. Esperava uma resposta grandiosa, altaneira e foi inesperada e insólita: a chegada do homem na lua.
Foi difícil de explicar e não sei se tive êxito. Sou da geração que assistiu criança e adolescente à corrida espacial, que sonhava em conquistar novos mundos, indo onde nenhum humano esteve. O Cláudio de 1973, com 9 anos, achava que o Cláudio de 2017 seria um astronauta. Então passei de astronauta para guerrilheiro de Sierra Maestra, virei Partizan, tenente na Coluna Prestes,  soldado da "résistance française", membro da Guarda Vermelha até chegar a comissário politico albanês, tudo isso ruiu, passou, mas o sonho de viajar pelo universo, o modelo meio engenheiro, meio cientista e militar permanece, é a base de tudo, ou seja, todos esses sonhos foram erguido nos ombros de um astronauta.

15 de dez de 2017

A HERANÇA PATRIÓTICA DE MIGUEL ARRAES


Para comemorar o aniversário de Arraes queria falar sobre um dos temas prediletos dele, a administração de dívida interna do Brasil e sua ligação com uma nova forma de colonialismo financeiro e estagnação econômica.
O orçamento para 2018 já foi aprovado. Nele estão previstos 3,57 trilhões em gastos. Destes, 1,16 trilhão se destinam ao refinanciamento da dívida pública e 316 bilhões ao pagamento de juros. No total, são 1,476 trilhão destinados ao serviço da dívida (juros e refinanciamento), ou seja, 41% do orçamento de 2018 já é prisioneiro da dívida pública. Esse problema da imensa e descontrolada dívida vem desde o Regime Militar, passando por Sarney, Collor Itamar, FHC, Lula e Dilma/Temer. Não foi tratado da forma adequada por nenhum deles e caso faça uma auditoria bem-feita irá encontrar uma ligação entre o modelo político que conduziu o país a atual crise de corrupção, a preservação da dívida interna e dos juros altos e o sistema bancário local e externo.
Nos países europeus mais ricos ligados à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), os percentuais de investimentos públicos devem ficar em 3%. Esse valor é necessário para manter o nível de obras e prevenir crises econômicas, mas no Brasil o governo Temer instituiu 0,3% do orçamento para investimento, valor que não garante uma retomada saudável de investimentos e, portanto, não tirará o país da crise.
Não adianta encontrar soluções para a crise política, não adianta lançar os maloqueiros do momento no xilindró e preservar o sistema de dívida elevada que enfraquece o país e alimenta a doença.
Existe uma ligação intrínseca entre crise econômica e a força política do país. Manter o país submisso passa por tornar a crise perene. Vivemos após o fim da crise na Rússia, durante o governo Lula, um instante de valorização de commodities, que criou um pequeno período de prosperidade sobrepondo por alguns anos o peso do pagamento da dívida e fortalecendo o país. Esse era o momento de fazer a reforma, estancar a sangria, pois existia sobras. Mas, deixou-se para depois, para o pré-sal, pois o processo de manutenção no poder era mais importante que os interesses do Brasil.
Agora acabou a farra das commodities. O pré-sal, que seria uma nova oportunidade, precisa de preços mais convidativos no barril de petróleo para funcionar. Saímos dos picos do aço para a China e voltamos ao vale dos bancos e dos juros altos. Voltamos a beijar a lona. Nada sendo feito serão décadas de estagnação, com crescimento pífio, “empurrando o gado” com diz Zé Lezin.
Nesse clima é necessário coragem até para pequenos movimentos. Eduardo Campos, que era um homem de coragem, perguntou certa vez: O que podemos fazer com 1% de baixa na Selic? Muita coisa.
Falta coragem atualmente, faltou no passado, inclusive no recente por interesse próprio, de perguntar: quanto temos que baixar na Selic e na dívida para pagar a previdência? Essa é a pergunta correta. Quando desenvolvimento devemos ter para garantir os direitos sociais? Quando do PIB deve ser investido em obras para garantir uma taxa baixa de desemprego?
Essas não são perguntas de esquerda, direita ou centro, são perguntas patrióticas, perguntas que poderiam vir de um dos maiores patriotas que esse país já conheceu: Miguel Arraes.