7 de jul de 2016

PEIXE DE ÁGUA DOCE

Tenho muito carinho e amor pelas minhas terras: Garanhuns, Belo Jardim e Brejo da Madre de Deus, mas também tenho um coração grande, que cabe outros lugares.
Interessante é que, mesmo morando há 36 anos no Recife, não me sinto pertencente à cidade e mesmo sendo tratado de forma fraternal sou sempre um visitante, um estrangeiro.
Acho que é o mangue, o massapé, a maré, o calor abafado e essa cultura de canavial, de casa grande e senzala, que não me diz respeito.
Sou peixe de água doce, meio sertanejo - meio da mata, sou do agreste.
Quando comecei a namorar com minha esposa Maria do Carmo, que é de Rio Formoso e pertence a essa cultura recifense, fui convidado para um almoço na casa de Cazuza, seu avô e pessoa interessantíssima. Lá serviram o prato mais fino e nobre que um recifense pode conceber, carne de caranguejo. Achei esquisito e terminei comendo apenas uma pequena poção, de forma contida, com um pouco de arroz e pirão. Devia ser uma entrada. Terminado perguntei a Carmo: - Quando servem o almoço? - Isso era o almoço, respondeu. Calei num sorriso, mas pensei com meus botões: Que gente estranha é essa que come caranguejo no almoço.
Aprendi a gostar do Recife, não pelo mangue e pelos caranguejos no almoço, mas pelas ruas, pela história e pela alma libertária da sua gente, nisso sou recifense, de coração.

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