23 de fev de 2009

Sacrilégio contra o Vaticano.

Então, padre Assis falou: “Habemus Papam”.

Esse acontecido que vou contar a vocês ocorreu no mês de setembro do ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1978.
Foi um ano inesquecível e bem peculiar, único do século a assistir a passagem de três papas pelo trono de Pedro: Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II.
A morte do primeiro deles, papa Paulo VI, foi devidamente reverenciada pelo Colégio Industrial Diocesano de Belo Jardim. Tivemos inicialmente o comunicado oficial feito solenemente por padre Assis, depois, alguns dias de feriado. Terminado o luto, seguiu-se a vigília em espera da fumaça branca que anunciaria que o conclave de cardeais já teria chegado a um acordo e escolhido o novo pontífice. Todo dia nos reuníamos na parte externa do colégio, em frente aos mastros, onde se hasteavam as bandeiras do Brasil, do Vaticano, cantava-se o Hino Nacional e se rezava para Deus iluminar a escolha do novo Papa.
Finalmente, o conclave elegeu o cardeal Albino Luciani, Patriarca de Veneza, que escolheu o nome de João Paulo I. Padre Assis explicou devidamente o que significava o anúncio “Habemus Papam”, um texto lido pelo mais antigo dos cardeais do concílio que anunciava quem teria sido o escolhido e qual nome adotaria. Todos nós fomos conclamados à alegria e ao otimismo com a promessa dos novos e melhores tempos do novo papado.
Até aí ia tudo muito bem, só que Albino Luciani, aquele que foi cardeal e era o papa João Paulo I, não emplacou um mês de pontificado, morreu em 28 de setembro, 29 dias após assumir o trono. Padre Assis teria que começar tudo novamente: luto, feriado, etc.
Na manhã do dia seguinte, uma sexta-feira, dia 29, chovia muito e todos chegaram ao colégio sem entender direito o que tinha acontecido. Padre Assis reuniu a todos e comunicou a inesperada morte do Papa. Como havia estiado um pouco fomos ao mastro onde foram hasteadas as bandeiras do Brasil e do Vaticano a meio pau, em sinal de luto. Mas, nem deu tempo de concluir a solenidade, pois a chuva voltou e dispersou os participantes, todos fugiram em busca de abrigo. Ficamos lá, esperando a chuva passar para cantar o hino, escutar o sermão de Dona Risoleta e voltar para casa afim de curtir mais uns dias de feriado.
Foi aí que apareceu do meio da chuva Jacinto, atrasadíssimo e encharcado até a alma pela chuva. Ele não tinha a menor idéia do que estava acontecendo, pegou apenas o momento onde todos correram para se proteger da chuva, deixando as bandeiras hasteadas somente até o meio do mastro.

Perguntou a um grupo de rapazes da 8ª série, da qual esse vosso amigo fazia parte:

- O que aconteceu, as bandeiras vão ficar assim mesmo?

Um dos rapazes (não lembro qual) respondeu:

- Claro que não Jacinto, aproveita que tu já tá molhado, vai lá e termina de hastear as bandeiras que Dona Risoleta vai dar um ponto na prova.

Jacinto não teve dúvida, já estava todo molhado mesmo, não custaria nada fazer uma média com as professoras. Saiu correndo para os mastros de chocalho tampado, foi lá, primeiro desamarrou a do Vaticano, rapidinho para não se molhar mais, depois a do Brasil.
Todas as professoras estavam em frente à secretaria bem longe dos mastros, separadas por pelo menos cinquenta metros de muita lama. Começaram gritando, mas não adiantava, pois a chuva abafava qualquer som. Dona Eraídes e Dona Risoleta tomaram coragem e saíram correndo pela chuva e pela lama na tentativa de impedir o sacrilégio.
Não adiantou.
Quando chegaram lá, Jacinto já tinha terminado o trabalho e exibia no rosto um belo sorriso de bom moço, de quem fez uma boa ação e esperava por elogios. Só conseguiu uma Risoleta irritada e a ameaça de suspensão de Eraídes, que somente muito depois entendeu o que se passava.

O mais interessante, entretanto, foi a reação de Padre Assis. Ele compreendeu perfeitamente o que estava acontecendo, colocou a mão escondendo a boca para não mostrar o riso incontrolável e entrou para a secretaria enquanto as professoras gritavam esbaforidas pela lama. Todos acharam que ele foi rir lá dentro, escondido dos alunos.

Eu adorei os anos que estudei no Diocesano.

Cláudio Cabral

Um comentário:

O Eu disse...

Pobre garoto. O padre podia ter aproveitado a ocasião pra fazer um sermão explicando que de boas intenções o inferno está cheio...hehehe.

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Excelente crônica, Cláudio. Sempre me avise quando escrever, você tem talendo não só pra expressar os causos como também pra escolhê-los, meu amigo.


Abraços!
André