30 de jul de 2016

NÃO TIREM O MACACO, POR FAVOR.




Lembrando hoje de uma estória sobre a relação cliente-agência, que me foi contada ainda no tempo de estudante e permanece atual, para tudo.
Contam que existia em Hollywood um roteirista apaixonado pela fábula da bela que é conquistada pela fera, do conto francês de Gabrielle-Suzanne Barbot, que teve a ideia de fazer um roteiro para um filme de ação onde pudesse usar as emoções criadas pela narrativa da fábula.
Montou uma história com uma bela ruiva (as ruivas sempre fazem papeis assim) e uma fera, um imenso gorila. No lugar do palácio, uma ilha remota do Pacífico habitada por monstros pré-históricos, e uma cena final, idêntica à fábula, onde a fera ensandecida é abatida pelos habitantes do vilarejo, transformado na cidade de Nova York.
O roteirista criou como quem faz uma sopa, não esquecendo todos os ingredientes para conquistar o público: ação, aviões com metralhadoras, bombeiros, interesses financeiros, e tudo mais. Entretanto, o cerne da história era a antiga fábula, as emoções seriam garantidas pelo mensagem que a mais bela das mulheres pode se apaixonar não pelo mais belo dos homens, pela beleza exterior, mas pelo que vem do interior, do coração, dos sentimentos.
Apresentou o roteiro a muitos estúdios, até que um deles marcou uma conversa, aceitou produzir o filme seguindo a ideia desde que ele fizesse uma mudança:
­— Esse animal é ruim para a imagem da empresa, muito rude. Tire o macaco que faremos o filme, disse o executivo do estúdio.
— Como assim, tirar o macaco? Perguntou horrorizado o roteirista.
Bem, outro estúdio decidiu usar o macaco e foi um filme de sucesso chamado King Kong.
Nas relações com nossos clientes criamos ideias que seguem essa lógica, são “macacos” sobre os quais toda a narrativa é edificada, muitas vezes não estão explícitos e podem ser até subliminares, escondidos na criação, mas são eles que transformam um simples anúncio em uma máquina de vendas, ou uma candidatura em um fenômeno político.
O problema é explicar a importância do “macaco” no meio da criação. O cliente menos habituado e despreparado, se encanta com a beleza das atrizes (sua marca) e os outros elementos acessórios, cheios de cores e movimento. Filmes de ação com mulheres bonitas e tiros de metralhadoras existem muitos, mas o King Kong é único, embora tenha tudo isso.
Lidar com a frustração de “retirar o macaco” é uma das mais traumatizantes experiências que um bom comunicador pode enfrentar.

28 de jul de 2016

DEVOLVAM O XELELÉU!

O português está perdendo palavras e as que são adicionadas são anglicismos pobres. Ontem recebi um email onde a palavra bajulador foi substituída por "smarmy", segundo o autor da substituição trata-se de uma palavra mais apropriada já que considerava "bajulador" muito educada, até culta, erudita.
Ora, nossa língua portuguesa é tudo, menos culta e erudita. Ninguém xinga alguém de "bajulador", isso é coisa da futilidade acadêmica e das sacristias. Nosso português foi formado nos portos, na zona, por prostitutas e trabalhadores braçais, escravos e livres. Quando se acusa alguém de bajulador se chama de puxa-saco, babão, chaleira e a melhor de todas, xeleléu.
Estamos perdendo a palavra xeleléu e em seu lugar querem colocar essa tal "smarmy". Terrível.

7 de jul de 2016

PEIXE DE ÁGUA DOCE

Tenho muito carinho e amor pelas minhas terras: Garanhuns, Belo Jardim e Brejo da Madre de Deus, mas também tenho um coração grande, que cabe outros lugares.
Interessante é que, mesmo morando há 36 anos no Recife, não me sinto pertencente à cidade e mesmo sendo tratado de forma fraternal sou sempre um visitante, um estrangeiro.
Acho que é o mangue, o massapé, a maré, o calor abafado e essa cultura de canavial, de casa grande e senzala, que não me diz respeito.
Sou peixe de água doce, meio sertanejo - meio da mata, sou do agreste.
Quando comecei a namorar com minha esposa Maria do Carmo, que é de Rio Formoso e pertence a essa cultura recifense, fui convidado para um almoço na casa de Cazuza, seu avô e pessoa interessantíssima. Lá serviram o prato mais fino e nobre que um recifense pode conceber, carne de caranguejo. Achei esquisito e terminei comendo apenas uma pequena poção, de forma contida, com um pouco de arroz e pirão. Devia ser uma entrada. Terminado perguntei a Carmo: - Quando servem o almoço? - Isso era o almoço, respondeu. Calei num sorriso, mas pensei com meus botões: Que gente estranha é essa que come caranguejo no almoço.
Aprendi a gostar do Recife, não pelo mangue e pelos caranguejos no almoço, mas pelas ruas, pela história e pela alma libertária da sua gente, nisso sou recifense, de coração.