14 de jun de 2013

FORA DA ZONA DE CONFORTO

Na esquerda do Brasil criou-se uma ilusão de poder e estabilidade. A vitória de Lula permitiu avanços importantes, mudanças em políticas estatais, melhoria das condições de vida de muitos, etc. Entretanto, para manter o poder foi necessário criar estratégias para governar, para as eleições, as alianças, e tudo mais que permite o poder ser exercido de forma razoável e estável. Optou-se pelo caminho mais simples e seguro, por uma adaptação, manifestada na Carta aos Brasileiros, logo após o fim da eleição de 2002.
O poder mudou de mãos, mas o status quo anterior permaneceu. O antigo regime (Ancien Régime)  apenas foi adaptado, mas, essencialmente, permaneceu como era. Esse estilo de mudar sem mudar ou de MMS - Mudanças Minimamente Invasivas - rendeu alguns avanços, mas agora começa a mostrar seus limites, o principal é a manutenção das desigualdades e da velha e viciada máquina do poder.
As manifestações em São Paulo mostram bem as insatisfações com esse "mudar sem mudar". Achar que um grupo de anarquistas sozinho podem mobilizar 5 ou 10 mil manifestantes para um confronto com a tropa de choque armada até os dentes, sem haver um forte sentimento social, é uma ilusão. Achar que as manifestações em São Paulo são por poucos centavos nas passagens, corresponde ao mesmo erro que achar que os parisienses invadiram a Bastilha por Antonieta ter sugerido a troca de pães por brioches.
É possível ouvir que os aumentos foram para satisfazer a ganância dos empresários dos transportes (amigos do PT), é verdade. Que o estado não investiu em mobilidade para os mais pobres, é verdade; que o planejamento das cidades é desumano e escraviza o brasileiro - não houve nenhuma reforma urbana - é verdade; que a educação está entregue ao setor privado aumentando ainda mais as despesas das famílias, é verdade; que a política continua sendo feita com os mesmo expedientes do passado, é verdade, é verdade, é verdade, é verdade. Tudo continua como antes, quase nada mudou.
As manifestações são contra o estado de coisas, tudo isso que está aí. Por obra do destino, por enquanto, essa revolta não foi traduzida numa política contudente contra o estado atual. Ainda não existe uma ligação clara entre o aumento das passagens e o status quo, existe um sentimento, mas não uma ação política efetiva. As forças políticas que poderiam transformar essa revolta numa revolução estão tentando sufocá-la  ou restringir sua abrangência e eficiência.
Mesmo que fique restrito ao que aconteceu até ontem, tô muito feliz. Nunca eu havia sentido uma coisa como essa, um gostinho de revolução. Eu andava desacreditado, acabrunhado, achando que essas coisas nunca aconteceriam. Bem, acontecem e não são fofinhas, bem educadas e minimamente invasivas.
É desagradável admitir, mas as mudanças sociais verdadeiras e duradouras não ocorrem numa boa, mas aos sopapos, aos trancos, fora da zona de conforto da governabilidade de feiticeiros como o Zé Dirceu, nosso Ravengar.

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