27 de jun de 2013

MISTÉRIOS PROMOVIDOS

Você sabe a diferença entre um mistério e um problema? Não, pois bem, vou esclarecer.
Um mistério é um mecanismo da natureza ou da sociedade que não se tem a mínima noção de  como funciona. Aqueles fenômenos que causam desconserto por não apresentarem nem sequer uma pista da sua essência. Quando é possível ter um vislumbre de uma solução ou uma explicação plausível, o mistério é promovido à categoria de problema.
Pois bem, essa semana promovi à categoria de problema diversos fenômenos que na minha classificação eram mistérios.
A queda do socialismo na URSS tinha alguns mistérios, em especial o apoio popular às manifestações contra o regime e a queda do tal muro em Berlim. Muitos explicavam, mas, no meu olhar pessoal, era um mistério.
A queda do regime albanês em 1989, era um mistério total. Conheci pessoas da mais absoluta confiança (é desnecessário citar nomes), que visitaram Tirana poucas semana antes da queda de Ramiz Alia e relataram um clima de otimismo e entusiasmo com o socialismo.
Onde estavam os sindicatos do socialismo, fortes por estarem no poder, numa "ditadura do proletariado"? Onde estavam as associações juvenis e estudantis fortalecidas pelo pode popular? Onde estavam as organizações de defesa do estado socialista? Pois bem, todos eram parte de uma coisa só, eram bichos de uma mesma goiaba podre e foram jogados fora juntos
Essa semana, com as manifestações pelo Brasil afora, ficou mais claro, tive um vislumbre do que pode ter ocorrido por lá, no antigo bloco socialista. Virou problema.
Um vislumbre importante veio com o papel das ditas organizações populares nos eventos. Qual foi a relevância das entidades estudantis e sindicais nas manifestações do Brasil? Nenhuma. A origem do problema é a mesma da velha URSS; as entidades comportam-se como anexos do governo, seguem a pauta do governo, são governo, ou seja, são parte da goiaba, do status quo que deve ser descartado.
E qual a lição que aprendi? A importância da democracia.
Democracia para reclamar, para protestar, para organizar sem a tutela do Estado ou de qualquer outro mecanismo ou fórmula pronta. Para ser independente, para não ter medo de errar ou não temer quem ameaça com o passado, quem enxerga um perigo em cada esquina ou um golpe de militar no suspiro de qualquer desavisado atrevido.
Hoje aprendi a importância de tudo isso e posso dizer, sem nenhum medo de multidões nas ruas:
VIVA A DEMOCRACIA!

25 de jun de 2013

O DISCURSO QUE DILMA NÃO FEZ

“Jovens do Brasil, brasileiras e brasileiros:

Nós erramos. Erramos todos nós que recebemos de vocês mandato para governar bem o Brasil, esquecendo os sonhos de vocês. Nós todos, os políticos e seus partidos, erramos. Mas devo admitir que nós que há 10 anos governamos o Brasil erramos mais e, especialmente, eu própria errei ainda mais, como a presidenta de vocês.
Nós erramos ao sermos a 6ª economia do mundo e a 88ª nação em educação; ao deixarmos o Brasil ser o mais violento país do mundo, fora de guerra; ao priorizarmos sempre o privado, especialmente transporte, em detrimento do público; ao tolerarmos a corrupção e não conseguirmos punir aos corruptos; ao consumir o presente sem investir no futuro; ao deixarmos toda juventude sem sonhos de utopia para seu país e parte dela sem o atendimento do essencial para seu presente; ao montarmos governos de acordos, lotando os cargos, nem sempre utilizando os mais capazes.
Nós erramos e temos que agradecer a vocês que foram para a rua manifestar indignação com a realidade política do Brasil. E erraremos muito mais se não entendermos que dois milhões de pessoas nas ruas não podem aceitar menos do que uma revolução.
Creio, e gostaria de ouvir a opinião de vocês, que no momento não se trata de uma revolução econômica e social, como aquela que me levou às ruas e até à lutas mais radicais, algumas décadas atrás.
Para mim, a economia e a sociedade precisam de fortes reajustes, de uma inversão nas prioridades, mas a revolução pela qual vocês vão às ruas está na subversão da atual estrutura política.
Fazer uma revolução na política para que nossos dirigentes tenham o sentimento das necessidades e vontades que estão na alma do povo, e que nossos executores tenham o mérito necessário para ocupar as diversas posições com a competência que o Estado moderno exige.
Este é meu sentimento, como a presidenta do Brasil, mas quero ouvir vocês, sentir o que pensam, pedindo que escolham e me enviem interlocutores, sem que quaisquer deles tenham monopólio, ouvirei todas as vozes e não só aquela de meu partido e de minha base de apoio.
Quando o povo coloca dois milhões de pessoas nas ruas, o governante não pode ter a cegueira de ficar restrito aos seus apoiadores e assessores. Até segunda feira, submeterei ao Congresso a proposta de realização de uma constituinte exclusiva para definir o marco legal de uma revolução na política.
Antes de entrar em vigor, a proposta destes constituintes será submetida a um plebiscito, para saber se ela está de acordo com o que o povo deseja.
Determinarei também aos meus ministros uma reanálise completa das prioridades dos investimentos e gastos governamentais, não apenas para os meses que restam de meu mandato, mas também para o futuro do nosso país.
Como quem na juventude lutou como vocês por um Brasil melhor, fico entusiasmada e grata pelo fato de a história ter me colocado o desafio de presidir um país, onde 2 milhões de pessoas estão nas ruas protestando pelo acúmulo de tantos anos de erros, especialmente de meu governo.
Eleita, democraticamente, agora preciso ir além da eleição e me ajustar à vontade do povo. São desafios como estes que permitem um governante na história, não apenas como administradora da herança recebida, mas como estadista do futuro a ser construído.
Eu agradeço a vocês não apenas pelo alerta, mas, sobretudo pela chance histórica que me ofereceram. Não vou deixar de ouvi-los, não vou decepcioná-los, podem ficar certos de que dedicarei cada instante do que me resta do mandato para estar à altura do momento e de vocês.

Muito obrigada, viva a democracia, viva o Brasil que vocês querem construir”.

Senador Cristovam Buarque

22 de jun de 2013

FAÇA UM ATO DE CORAGEM PRESIDENTA

O terceiro item do discurso da presidenta ela diz que o governo fará um "combate sistemático à corrupção e ao desvio de recursos públicos".
Essa talvez será a mais vazia e mais impraticável de todas as promessas. Como a presidente pode combater a corrupção no seu governo? Perseguindo uma ou outra pequena falcatrua de algum larápio encastelado num partido satélite do PT? Isso seria a criação de um bode expiatório e a população descobriria.
Como pode a presidenta prometer tal façanha, combater a corrupção, quando está movendo céus e terra para livrar José Dirceu e toda a sua quadrilha de corruptos da prisão?
A população nunca entendeu direito os mecanismos da corrupção, mas, a leitura do processo do Mensalão no STF colocou a mostra as vísceras do esquema criado por Zé Dirceu e administrado por Marco Valério para submeter, por intermédio da distribuição de dinheiro, deputados à vontade do Executivo em um processo que envergonhou a nação
Qual seria o melhor sinal, aquele mais significativo, emblemático, que poderia ser dado pela Presidenta Dilma ao povo brasileiro e à juventude que foi às ruas de que as coisas começaram a mudar? A prisão de todos condenados no processo do Mensalão.
É necessário suspende todas as manobras que tentam pressionar o STF. Deixar o tribunal livre e com a tarefa de aplicar as penas que já foram imputadas, ou seja, passar a bola para o Judiciário, para que esse faça sua parte constitucional com a celeridade que a situação política exige. Seria o cumprimento do item 3 do discurso, combate a corrupção e também do item 5 que diz para "conversar com os chefes dos outros poderes para somarmos esforços".
Esse seria um primeiro gesto que poderia ser seguido por outros como a apuração dos desmando da Rosimary sem proteger nem excluir ninguém.
Com essa sinalização objetiva existiria clima para o início de uma reconciliação nacional. Sem ela não acredito que a população tenha confiança em Dilma, vai continuar achando que é muito bla, blá, blá, muito miolo de pote e pouca verdade.
O PT deve essa medida ao povo e a toda a esquerda do Brasil.

20 de jun de 2013

EM BUSCA DA LEGITIMIDADE

O que virá após essa gigantesca manifestação de descontentamento popular? Reformas? Não serão suficiente.
Posso está errado, mas, podemos está presenciando o fim do ciclo da Nova República. Começou com as Diretas Já, foi para o colégio eleitoral com Tancredo, Sarney (fim da transição), Collor, Fernando Henrique, Lula e foi concluído com Dilma. A Nova República é um ciclo que finalmente está sendo fechado, está exaurido, não há saída dentro do governo petista que hoje toma conta do país ou de outro governo do PSDB, que venha a substituir Dilma. Precisa ser mais que isso.
Vamos para um novo Brasil, mais republicano, cidadão, desenvolvido. Um país reconciliado, otimista.
Como será esse "Novo Brasil"? Não sei, ainda está sendo desenhado, escrito, mas, tenho alguns vislumbres na ótica pessoal:
BRASIL CIDADÃO
Será um Brasil mais cidadão, mais republicano, eficiente, voltado para a prestação de serviços ao cidadão;
REPRESENTAÇÃO POLÍTICA
O Governo deve sentir mais a opinião pública, portanto, devemos caminhar para um parlamentarismo, onde uma força política não consiga tomar de assalto o poder, espalhar-se por todos os cantos e deixar a Nação refém.
LEGISLATIVO
Enfraquecimento da estrutura elitista do Poder Legislativo, ampliando as vagas para deputado e reduzindo as vantagens para níveis compatíveis com o funcionalismo público. Criação da mecanismos mais claros e eficiente no sentido de garantir a integridade dos poderes, contra o ataque do outro. Mudanças nos processos das campanhas e seu financiamento.
PARTIDOS POLÍTICOS
Aceitação de todas as opiniões políticas. O Brasil vive num sistema partidário apenas com esquerda. Vai do centro-esquerda e extrema esquerda. Precisamos reintroduzir aqueles que ficaram sem representatividade, reconciliar o país, dando legalidade a qualquer opinião: esquerda, direita, religiosos, ateus, gays e tudo mais que existe sem representatividade oficial. É uma tarefa de coragem.
ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE
Convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte para transformar tudo isso em realidade.
PODER JUDICIÁRIO
Fim do modelo "monárquico" e fortalecimento do "republicano", com todos os valores que isso representa. Busca da representatividade popular direta. Fortalecimento do Ministério Público.
FORÇA ARMADAS
Reconciliação com as Forças Armadas e reinserção na vida social e política. Hoje os militares vivem à margem, o que é perigoso e péssimo para o país. Deve ser renovada, obedecendo a critérios democráticos e republicanos, profissionalizada e transformada também num fator de desenvolvimento social e tecnológico.
EDUCAÇÃO
Fortalecimento da Educação Pública e de qualidade.
LIBERDADE DE OPINIÃO
Garantia da liberdade de opinião e de imprensa. Facilidades para os muito pequenos e controle para os muito grandes.
MOBILIDADE/REFORMA URBANA
Criação de um programa nacional de reforma urbana e mobilidade. Moradia e transporte como direitos constitucionais, como já acontece com a saúde.

Esses são alguns temas que serão enfrentados. Existem muitos outros.

17 de jun de 2013

É UM REAL!

Houve um tempo, nos idos de 2001, que a cidade do Recife foi tomada por milhares de kombis, bestas e tropics. Elas disputavam espaço nos pontos de ônibus e tinham um rapazinho pendurado gritando, quase como música, o itinerário e o preço: "É um real".
O que as kombis ofereceram por "um real" que conquistou o usuário? Conforto, agilidade e capilaridade. Conforto de viajar sempre sentado e no ar-condicionado, agilidade de fazer o percurso sem paradas e a capilaridade de levar o usuário até o seu ponto final, a porta de sua casa.
O respeito pelo idoso e pelo doente era natural. Os velhos com dificuldades de locomoção adoravam as bestas - pegava em casa, deixava em casa - sem terminais lotados, sem degraus e bem sentados. O cobrador era um atleta, pulava fora com o veículo ainda em movimento,  ajudava o idoso a embarcar e ser acomodado da melhor forma possível. No desembarque,  pela simples necessidade de rapidez e pela concorrência, desmontava as cadeiras e ajudava o idoso a sair com rapidez e segurança, até o lado de fora, até o velhinho está em segurança na calçada. O cobrador era uma espécie de faz tudo, relações públicas, publicitário, caixa e mestre de cerimônia.
Era um sistema que, em teoria, não podia dar certo economicamente. As tropics e bestas eram carros caros e frágeis, com manutenção elevada. Possuíam sistemas de refrigeração ineficientes e tecnologias de terceira linha. Uma Kombi, bem, nem precisa de comentário, é um projeto de 1938. A quantidade de mão de obra era muitas vezes superior aos ônibus. Uma única Besta poderia ter duas ou três equipes, o que significa emprego para quatro ou até seis pessoas de baixa qualificação, sem contar mecânicos e outros profissionais de manutenção.
Mesmo assim a coisa prosperou rapidamente regada pelo "um real".  Era um negócio seguro, certo. Toda semana abria uma luxuosa loja que vendiam as bestas e tropics com financiamentos curtos, muitas vezes pagas a vista.
Era a falência do modelo de transporte privado urbano baseado em ônibus e no cartório das concessões. As bestas eram pequenas, ágeis, modulares e guiavam-se pela oferta de passageiros, desviando dinamicamente os veículos para onde existia maior demanda. A oferta de transporte público era farta e equilibrada.
A reação dos donos de empresa de ônibus, proprietários de concessões de linhas,  foi imediata e em duas frentes: melhorar a frota para atrair o usuário e pressionar o poder público a fazer valer a lei e os direitos exclusivos.
Para o usuário foi lançado o geladinho, um ônibus com ar-condicionado, renovada a frota, melhorada as cadeiras com estofados mais macios, e outros dengos. Para o poder público foram regadas as campanhas eleitorais com generosas doações secretas.
Deu resultado. O prefeito da cidade, João Paulo do PT, declarou à imprensa que, caso as bestas não fossem totalmente eliminadas, a cidade cairia num caos urbano, que elas eram as principais responsáveis pelos engarrafamentos, que não pagavam impostos ao município, eram foras da lei, bandidos, não existia segurança e viajar numa besta era quase um sentença de morte.
Começou a repressão brutal. Primeiro foi proibido o licenciamento, não funcionou, depois foram perseguidos pela polícia de trânsito e por fim banidos violentamente.
A classe média, que não usava as bestas, aplaudiu pois houve uma pequena melhora no trânsito, quase imperceptível.
João Paulo pousou de herói para essa parcela da população mais rica e de carrasco para milhares de trabalhadores e usuários pobres. Defendeu a Lei, o status quo, contra a baderna e ilegalidade das kombis.
As promessas de melhorar o sistema foram logo esquecidas. Sumiram os "geladinhos" e a população voltou a ser transportada como gado.
Quanto ao preço da passagem é bom fazer uma comparação com outro produto similar, a gasolina. Em 2001 a tarifa do Recife era R$ 1,00. Naquele tempo o preço de um litro de gasolina era R$ 1,69, ou seja, era possível comprar 590ml com uma passagem de ônibus.  Após 12 anos o preço da gasolina está em R$ 2,85, é possível comprar 790ml.
Tire sua conclusões.

14 de jun de 2013

FORA DA ZONA DE CONFORTO

Na esquerda do Brasil criou-se uma ilusão de poder e estabilidade. A vitória de Lula permitiu avanços importantes, mudanças em políticas estatais, melhoria das condições de vida de muitos, etc. Entretanto, para manter o poder foi necessário criar estratégias para governar, para as eleições, as alianças, e tudo mais que permite o poder ser exercido de forma razoável e estável. Optou-se pelo caminho mais simples e seguro, por uma adaptação, manifestada na Carta aos Brasileiros, logo após o fim da eleição de 2002.
O poder mudou de mãos, mas o status quo anterior permaneceu. O antigo regime (Ancien Régime)  apenas foi adaptado, mas, essencialmente, permaneceu como era. Esse estilo de mudar sem mudar ou de MMS - Mudanças Minimamente Invasivas - rendeu alguns avanços, mas agora começa a mostrar seus limites, o principal é a manutenção das desigualdades e da velha e viciada máquina do poder.
As manifestações em São Paulo mostram bem as insatisfações com esse "mudar sem mudar". Achar que um grupo de anarquistas sozinho podem mobilizar 5 ou 10 mil manifestantes para um confronto com a tropa de choque armada até os dentes, sem haver um forte sentimento social, é uma ilusão. Achar que as manifestações em São Paulo são por poucos centavos nas passagens, corresponde ao mesmo erro que achar que os parisienses invadiram a Bastilha por Antonieta ter sugerido a troca de pães por brioches.
É possível ouvir que os aumentos foram para satisfazer a ganância dos empresários dos transportes (amigos do PT), é verdade. Que o estado não investiu em mobilidade para os mais pobres, é verdade; que o planejamento das cidades é desumano e escraviza o brasileiro - não houve nenhuma reforma urbana - é verdade; que a educação está entregue ao setor privado aumentando ainda mais as despesas das famílias, é verdade; que a política continua sendo feita com os mesmo expedientes do passado, é verdade, é verdade, é verdade, é verdade. Tudo continua como antes, quase nada mudou.
As manifestações são contra o estado de coisas, tudo isso que está aí. Por obra do destino, por enquanto, essa revolta não foi traduzida numa política contudente contra o estado atual. Ainda não existe uma ligação clara entre o aumento das passagens e o status quo, existe um sentimento, mas não uma ação política efetiva. As forças políticas que poderiam transformar essa revolta numa revolução estão tentando sufocá-la  ou restringir sua abrangência e eficiência.
Mesmo que fique restrito ao que aconteceu até ontem, tô muito feliz. Nunca eu havia sentido uma coisa como essa, um gostinho de revolução. Eu andava desacreditado, acabrunhado, achando que essas coisas nunca aconteceriam. Bem, acontecem e não são fofinhas, bem educadas e minimamente invasivas.
É desagradável admitir, mas as mudanças sociais verdadeiras e duradouras não ocorrem numa boa, mas aos sopapos, aos trancos, fora da zona de conforto da governabilidade de feiticeiros como o Zé Dirceu, nosso Ravengar.

1 de jun de 2013

PORTAIS DO PARAÍSO

Sítio Estrago no Brejo da Madre de Deus, alpendre da casa de Roberto Tavares. Visão da localização mais provável dos portais dos Campos Elísios, do paraíso.

Minhas cidades são Garanhuns, São João, Belo Jardim e Brejo da Madre de Deus. Sou filho um pouquinho de cada lugar desses. Garanhuns do meu tempo de menino e das matinês no Cine Veneza; São João das pescarias na companhia  do meu pai; Belo Jardim dos fervores da adolescência, da Festa de São Sebastião, Marocas e dos amores inesquecíveis; Brejo da minha mãe, minha tia Urze, Tio Neco, Serra do Ponto e da tardes no Escorrego. Para o Recife, bem, sobrou apenas o resto. Sinto muito Recife, a parte mais bonita não é sua.
O mundo começou em Garanhuns, para mim textualmente, nasci lá. Lá é meu elemento primordial, sou parte da paisagem. As palavras ditas nas ruas e nas casas são no meu exato idioma e não num dialeto qualquer do Recife, São Paulo ou Bahia. Lá a terra é branca e solta, não esse massapé argiloso da beira do mangue. Faz um frio maravilhoso e o ambiente é perfeitamente adaptado à vida humana, o ano todo.
Se meu destino não for mesquinho, mereço ter a oportunidade de ter a minha casinha por lá.
Belo Jardim, amo muito, entretanto, mais as pessoas e menos as coisas, exceto o rio Bitury que sempre tratei como gente. Foi uma terra de passagem. Belo Jardim é movimento, mudança, emoção. Já não me sinto pertencente à paisagem, sem falar nas muriçocas.
Brejo é o onde está localizado os portais dos Campos Elísios. Lá já está a minha mãe, meus irmãos e tios. Quando morrer não ficarei em Garanhuns, migrarei para o Brejo da Madre de Deus, onde serei recebido nas portas do paraíso por meu avô, Roberto Tavares (pronuncia-se com "u", assim: "Ruberto"). Não consigo imaginar outro lugar para os deuses colocarem os portais do paraíso. O melhor ponto é esse aí em cima, visto do alpendre da casa de Seu "Ruberto". Caso não estejam localizados no Brejo, sinto muito, esse tal paraíso não existe.