28 de nov de 2012

VIVA AS KOMBIS! PEQUENO É EFICIENTE

O transporte público da região metropolitana do Recife não é para quem tem alguma propensão ao orgulho ou a soberba. É uma campo de penitências onde aprende-se a virtude da humildade pela humilhação e submissão. Um ato quase franciscano.
Devemos combater a soberba, já que é o mais perigoso dos sete pecados capitais. Tento fazê-lo com exercícios habituais de humildade. Uma das formas é o uso de transporte público.
O transporte público é um dos males que afligem os menos abastados no mundo moderno. Horas e mais horas desperdiçadas. Tempo que deveria ser usado em outras atividades.
A ligação entre o pobre e o ônibus lotado é imediata. É necessário humilhar o ser humano pobre, colocando-o para espremer-se num ônibus durante uma, duas ou até três horas por dia.
Mas já houve outros tempos. Quando as kombis circulavam o quadro era outro: pontos com pouca gente, ônibus novos com ar condicionado, rapidez e conforto.
Problemas? Sim, mas não devido a solução que era eficiente e efetiva e sim a ausência do poder público. Livres para fazerem o que desejavam, os kombeiros abusavam.
As kombis e bestas dividiam os passageiros em pequenos módulos. Um ônibus pode levar 80 pessoas, isso equivale a cinco bestas/kombi. Ora, existe muito mais arranjos para acomodar 5 bestas no trânsito do que um ônibus. Numa analogia a um jogo de batalha naval, é mais fácil localizar e destruir um porta-avião do que 5 submarinos (analogia porca, mas inevitável. Rarará!).
A tecnologia de refrigeração é mais simples e barata numa besta que num grande ônibus, o tempo usado nas paradas é menor pois existe mais manobrabilidade e menor quantidade de passageiros, uma besta quebrada prejudica menos e atrapalha menos o trânsito, mais empregos e renda, etc.
Normalmente quando se fala em transporte coletivo pensa-se em grande, mas eu quero pensar diferente, pequeno, modular, diluído, uma solução que use o que já existe e o que já foi testada com sucesso.

SÓCRATES E O TURISMO


Não gosto de viajar e depois de ler Sêneca fiquei ainda mais averso às viagens. Sêneca diz que Sócrates estava numa festa quando alguém que adorava viajar perguntou a ele a razão de nunca ter encontrado satisfação nos lugares que visitou e o filósofo respondeu:
- É a companhia.
- Mas, eu viajo sempre sozinho! Respondeu o turista.
- Está vendo com que tipo ruim de companhia, você mesmo.
Rarará!

MERCADO EDITORIAL - UM NEGÓCIO ZUMBI


Não existia mercado editorial antes de Gutemberg, ele criou esse negócio, que do ponto de vista industrial, consiste em beneficiar folhas de papel e vendê-las por uma preço mais elevando. O lucro pode ser ampliado pela redução da quantidade de papel, ou pela elevação da procura do conteúdo impresso. Para a indústria, conteúdo é aquilo que deve ser impresso para que o papel sofra a metamorfose transformando-se de uma feia e tosca folha de papel, uma lagarta, numa linda borboleta, o livro.
O mérito de Gutemberg não está em ter conseguido a tecnologia, o tipo móvel, isso já era dominado pelos chineses, mas em ter iniciado um bussiness de sucesso.
A lucratividade do mercado editorial sempre foi astronômica, o que possibilitou a longevidade do negócio.
Hoje, entretanto, um dos elementos fundamentais sumiu: o papel. Não é mais necessário dele para divulgar o conteúdo e o negócio deixou de existir, sublimou.
O mundo e a cultura existiam antes de Gutemberg vão continuar existindo após o fim do seu modelo de negócio. Cícero, Aristóteles, Tomás de Aquino e Sêneca nem sonhavam com o livro moderno, da mesma forma que os intelectuais do futuro irão rir do tempo das cavernas quando era necessário tinta para aprisionar a palavra estática numa lasca de celulose feita de árvores derrubadas por uma indústria poluidora.
A "palavra" do futuro não caberá numa folha de papel, será muito mais que isso, verbo, ação, som, imagem, cheiro, algo muito maior.
O mercado editoria atual é um zumbi, um morto-vivo. Não adianta choro nem vela.

AS BELAS QUE ME PERDOEM, MAS A FEIURA É FUNDAMENTAL


Para Santo Agostinho "O mal é a ausência do bem". Ora, assim, tirando o bem, teremos o mal puro, logo, conseguimos criar uma escala de presença onde o mal forma o ambiente, o background  para o surgimento do bem, ou seja, o mal é fundamental, primordial, e o bem apenas derivado, posterior, produto.
Faz todo sentido. Veja o que afirma a grande filósofa Rita Lee "A feiura só ganha da beleza em tempo de duração  o que é uma verdade evidente, já quem a beleza é passageira e sempre vencida pela feiura.
Assim, temos uma ideia similar à de Agostinho aplicado ao dueto feiura/beleza, onde a feiura cria a base para a beleza, sendo a ela anterior. Nascemos com cara de joelho e morremos com jeitão de maracujá de gaveta.
Depois desses argumentos concluo contra Vinícius de Moares e afirmo com certeza inabalável:
"As belas que me perdoem, mas fundamental mesmo é a feiura".
E tenho dito.

20 de nov de 2012

O QUE MUSSUM E JOAQUIM BARBOSA TÊM EM COMUM?


Eu sou daqueles que teve a oportunidade de ter Ariano Suassuna como professor. Certa vez, em sala de aula, comentávamos sobre os atores das diversas montagem para o cinema da peça Auto da Compadecida. O que mais me surpreendeu foi a simpatia de Ariano com a montagem feita por Renato Aragão e os Trapalhões, em especial Mussum no papel de Deus.
Dizia Ariano que não desejava um negro digno e com porte atlético no papel de Deus. Esse tipo de negro não desperta o preconceito. Mas Mussum era justamente o oposto, era um "negro safado", um desqualificado, bêbado e pobre. Na cena do julgamento a surpresa do padre e do bispo com a chegada de Mussum como um Jesus "negro safado" põe o preconceito a mostra.
Dito isso, fico refletindo sobre o herói da vez, o presidente do STF , ministro Joaquim Barbosa.
O ministro Joaquim não nasceu com aquela imponência física que dá uma tremenda dignidade à raça negra e que costumam representar Zumbi dos Palmares e teve a vida inteira o ator e cantor Tony Tornado. Não, tem a aparência do Mussum, sorrindo, então, é idêntico.
Entretanto, Fortuna fez caiu sobre as costas desse senhor, por sorteio, o peso de relatar a Ação Penal 470. Imagino aqui com meus botões se o que passou pela cabeça dele estava relacionado com a sua cor de pele. Acho que sim.
Joaquim não poderia ceder, tinha esse peso nas costas. Claro que um comportamento exemplar era um anseio do Judiciário, para se afastar do limbo que foi metido o prestígio dos poderes da República. Mas Joaquim estava livre para escolher. Seria mais fácil e proveitoso ceder ao poder e deixar, por qualquer detalhe técnico, Dirceu impune. Joaquim escolheu o caminho mais difícil.
Hoje, quando vejo as críticas que fazem ao Joaquim, de petistas campeões das cotas raciais, sempre o vejo fazendo as coisas e em imagens que o representam de forma preconceituosa, de preferência num sorriso "safado" ou em uma cena num bar sugerindo o vício no álcool e até mesmo dizendo que trata-se de uma pessoa subserviente com a direita e violento com a família. Ou seja, o mesmo arquétipo de Mussum, o "negro safado".
Aqui eu postei o filme Auto da Compadecida de Renato Aragão. Assista e confirme.


8 de nov de 2012

ANTIMUNICIPILITE


A dura luta dos prefeitos contra uma doença que enfraquece um dos pilares da nossa democracia, o município.


Eu já conheci grandes intelectuais, ligados às melhores tradições desenvolvimentistas da Sudene, que eram inimigos dos municípios e do pacto federativo. Os argumentos até fazem sentido: falta de controle, administração deficiente, prefeitos incultos, corrupção, instabilidade política e administrativa, etc. Claro que é mais fácil controlar os recursos e ações através do governo central, onde os problemas administrativos são menores e os quadros mais cultos.
Essa doença, que eu vou chamar de antimunicipilite, é endêmica no Brasil. Quando combinada com um diploma de economista ou administrador e com o preconceito contra os estados nordestinos, podem resultar em graves problemas sociais e políticos.

O município e o carro zero quilometro.


Nossa presidenta sofre da manifestação crônica da antimunicipilite. Adora torturar os prefeitos fazendo política anti-inflação com o IPI dos automóveis, atingindo diretamente os municípios mais pobres que dependem do FPM. É parte do raciocínio deformado sintomático da doença, de que os recursos destinados ao FPM vão embora na corrupção e ineficiência dos municípios e assim terão um papel mais produtivo reduzindo o preço dos automóveis ao consumidor, aumentando as vendas, e ampliando o capital das montadoras que finalmente são as principais indústrias do país, a maioria no sul, para variar.

O município como vilão da Educação.


Ultimamente, entretanto, ela se superou. Aconteceu na votação sobre a distribuição dos royalties do petróleo. Tudo caminhava para que grande parte desses recursos fossem destinados aos caixas das prefeituras em todo o país, e com uma coisa maravilhosa, o Governo Federal não poderia desviar os recursos para outros fins (como faz com o IPI) e o valores seriam crescentes, aumentando com o pré-sal. Foi um parto difícil, mas os municípios tinham conseguido ganhar a batalha e o projeto ia para o gongo final no Congresso.
Dilma, então, num momento de clarividência e extrema bondade, descobriu que toda essa dinheirama poderia ser usada pela educação. Vamos acabar com esse negócio de mandar dinheiro para os municípios e transformar a educação brasileira, argumentou.
Mas, como na música de Luiz Gonzaga, os deputados que compreendem a importância do pacto federativo, não foram moles, partiram para o terreiro, sopraram o candeeiro e aprovaram a versão do Senado que distribui com os municípios os royalties.
Era justamente o que Dilma queria, essa era a bala de prata, o argumento irresistível que faria os deputados votarem "contra a educação" e dar embasamento moral e político para ela vetar o projeto. Dilma consegui novamente golpear os municípios, pois com projeto vetado voltamos a estaca zero.
E o que ainda melhor, conseguiu ganhar um bônus  Sem o dinheiro dos royalties como o Governo Federal vai investir em Educação? Ou seja, conseguiu arranjar um argumento para justificar a falta de prioridade para a educação no passado e no futuro e colocar a conta no colo dos municípios.
Essa presidenta é uma danada.