20 de out de 2012

AS TRÊS RESPOSTAS QUE CONSTRUIRAM A MINHA FORMAÇÃO POLÍTICA

Enver Hoxha pouco antes de sua morte em 1985.

Três respostas a problemas políticos tiveram grande importância na minha formação política, elucidaram pontos centrais do posicionamento político de correntes de pensamento do meu tempo. Vou comentar cada um e tentar, quem sabe, ajudar o leitor a entender melhor o que somos hoje.


FOQUISMO


Meu primeiro posicionamento político de esquerda foi foquista. É o mais simples, romântico e o mais ligado a nossa cultura latina. Vivíamos num regime militar, um governo autoritário, conservador, e não parecia ser possível mudar a situação por intermédio da luta democrática. A única perspectiva concreta era o confronto armado. Che Guevara era uma espécie de modelo desse tempo difícil. Tinha um modelo que qualquer pequeno grupo poderia seguir e o pior, um exemplo de sucesso que era Cuba. O céu poderia ser tomado de assalto. Éramos nesse tempo guerrilheiros, lutadores.
Nesse tempo entrei para a UFPE e lá tive contato com o MR8. Era um clima de preparação para uma grande conflagração que aconteceria num futuro próximo. Era o que eu desejava, mas, faltava algo. Falava-se de como tomar o céu de assalto, mas não o que fazer com ele após tomá-lo. Eram apenas afirmações genéricas e referência ao que estava sendo construído em Cuba que não era grande coisa.
Minha atração pelo foquismo terminou no dia em que descobri que não era um solução completa, eram apenas fragmentos desconexos. A forma de fazer política era a mesma dos caudilhos latinos, mexicanos, cubanos, etc. O socialismo advindo desse modelo tinha os mesmo defeitos. Deixei o foquismo de lado.

REVISIONISMO


O primeiro e mais forte contato político que tive em minha vida foi escutando ondas curtas, na luta travada entre a Rádio Central de Moscou, a Rádio Pequim e a Rádio Tirana da Albânia. Eu escutava todos os dias, religiosamente, pelo menos três noticiários. Eram três posições políticas divergentes no campo do socialismo.
A URSS falava de paz o tempo todo, denunciava os EUA, acusava a China de ter renegado o socialismo e ignorava solenemente a Albânia. A China, por sua vez, denunciava a política agressiva e imperialista da URSS e dos Estados Unidos, mas como solução mostrava o caminho chinês que era incompreensível para mim.
A Albânia era diferente. Batia igualmente em todo mundo, mas explicava bem as razões. Mostrava que a URSS havia abandonado o caminho do socialismo e fazia isso com detalhes de arrepiar e com uma firmeza a toda prova. A todo momento reforçava os conceitos de revolução, exército popular, luta política, internacionalismo proletário e outros. Enver Hoxha denunciava o capitalismo como responsável pelos males da sociedade e que a única ferramenta eficiente que se tinha para combatê-lo era o partido comunista com o marxismo-leninismo como guia, ideologia que havia sido abandonado pelos dirigentes soviéticos após o tal XX Congresso do PCUSS e o golpe dado por Kruchev.
Sobre a China Enver dizia que nunca tinham sido comunistas e que só esperam um bom momento para embarcar no capitalismo. Chamava o grupo maoista de "camarilha de Pequim" e os tratava como bandidos.
Escutando a Rádio Tirana todo dia eu não poderia entrar no PCB que era ligado a URSS e minha aproximação com o PCdoB, amigo da Albânia, foi natural.

SOCIALDEMOCRACIA


Socialdemocracia para mim sempre foi grego. Eu era do partido de Enver Hoxha, marxista-leninista, revolucionário, anti-revisonista, stalinista. Confesso que só tive uma visão mais simpática da social democracia após ler e prestar atenção a Kaustsky.
Portanto, sempre fui hostil ao PT, partido socialdemocrata por excelência. Pior que isso, existia na legenda velhos inimigos como os trotskistas. A antipatia era natural e foi reforçada pela luta política estudantil.
Enver Hoxha também fez um extenso trabalho sobre a socialdemocracia como uma tentativa de salvar o capitalismo e impedir o crescimento de idéias revolucionárias  e de libertação da Classe Operária. Tudo isso foi publicado no Brasil, pela maravilhosa Revista Princípios do PCdoB. Eu li e concordei.

CONCLUSÃO


Após 30 anos, olhando pelo retrovisor, acho que o Enver Hoxha acertou. A URSS era mesmo revisionista e fez o que ele previu, traiu o socialismo. A China nunca foi socialista e a vida tem mostrado. Cuba sempre foi um estado desligado da realidade, baseado em caudilhos e subalterno do revisionismo. A socialdemocracia triunfou no mundo e no Brasil e isso não significou quase nada para o socialismo ou para a libertação da Classe Operária.
 Enver Hoxha estava certo.
Mas, o Partido Comunista do Brasil, abandonou Enver, acha que a China constrói algo similar ao socialismo, que Cuba também faz o mesmo e que é possível construir alguma coisa com um futuro socialista em parceria com os sociaisdemocratas do PT no Brasil.
Enver morreu em 1985, antes da Albânia cair, mas isso não desautoriza nada do que ele disse. Mostra apenas que é muito difícil para uma pequena nação construir sozinha o socialismo. Apenas isso.
Revisitando Enver, acredito que não podemos olhar o futuro sem levar em conta a opinião de pessoas como ele. É necessário construir um novo modelo de sociedade, sim, mas sei que não pode ser foquista, revisionista ou socialdemocrata, Enver ensinou isso, mesmo que o modelo proposto por ele seja anacrônico e historicamente superado.

Um comentário:

Anônimo disse...
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