6 de abr de 2009

AMIGO É PRA ESSAS COISAS


As peripécias de três amigos ou memórias do Bitury.

Dona Nenzinha, minha mãe, deu ordem expressa proibindo banhos e até mesmo visitas ao Rio Bitury. Não foi recomendação, foi ordem. Ela estava certíssima, o Bitury era perigoso, cheio de armadilhas e justamente por isso não segui o seu decreto. Como nunca fui mau filho, pedi desculpas e ela, como boa mãe, perdoou. Mas, por segurança, aguardei vinte e cinco anos para fazer o pedido.
Naquela tarde de 1977 corria a notícia que a Barragem Nova, situada a uns quatro quilômetros da cidade de Belo Jardim, estava enchendo rapidamente e Everaldo veio me chamar para assistirmos o espetáculo, in loco. Imperdível. Montamos nas bicicletas e saímos em direção ao bairro de São Pedro, caminho para a Barragem Nova. O céu estava cheio de nuvens carregadas, mas não chovia e o vento mudava de direção o tempo todo, deixando as árvores agitadas. Passamos pela ponte sobre o rio, na altura da barragem velha. Era uma sólida e confiável ponte de madeira, feita com toras grossas e muito metal. Qualquer caminhão, mesmo bem pesado, passava sem nenhum perigo. Mas naquele momento estava recebendo toda a água que vertia por cima do paredão da barragem velha. Muita água. Dava pra sentir e escutar o sofrimento da velha ponte resistindo.
Atravessamos apressados e continuamos, paralelo ao rio, em direção a Barragem Nova para assistir ao espetáculo anunciado. Chegamos ao Bar do Peixe e subimos até o topo do paredão da imensa barragem.
Começou a chover quando nós, eu e Everaldo, já estávamos na metade do paredão. A chuva foi aumentando rapidamente. Eu nunca tinha enfrentado uma tempestade tão violenta. As gotas eram grandes e doíam ao chocar-se contra a pele. O vento confuso, muitas vezes dava a sensação de está soprando para o alto. Frio, gelado. Impedidos de continuar e sem nenhum abrigo paramos. A chuva criou uma barreira ao nosso movimento. Era necessário olhar para o chão, pois as gotas batiam nos olhos e machucavam. A água corria sob nossos pés levando o barro e provocando a perda de equilíbrio. Continuamos andando, levando as bicicletas.
A visão da barragem era impressionante. A grande ilha do centro estava submersa e sua posição era marcada apenas pela copa de algumas árvores. Dava pra ver a chuva carregando as roças na margem esquerda, deixando a terra nua. No sangradouro foi que sentimos a gravidade do momento. O nível aumentava a cada segundo que passava, estava completamente cheio, a água ocupava o espaço lateral derrubando aos poucos uma parede de barro vermelho cortada no morro. E a chuva continuava batendo impiedosa e bem disposta em minhas costas. A euforia deu lugar ao medo. Fiquei sério, olhei para Everaldo que estava estático, com os olhos esbugalhados. Era só eu e ele naquele lugar. As únicas testemunhas do dilúvio.
Só um coisa passou pela minha cabeça: a ponte. Essa água toda vai levar a ponte na barragem velha e nós íamos ficar isolados. Mamãe vai me matar, pensei. Então Everaldo disse:

- Eita, se a gente ficar aqui “tâmo lascado”. Dona Nair disse que eu tenho que tomar um remédio já, já.

Dona Nair era a mãe dele, fazia menos regras e usava o cinturão mais vezes que Dona Nenzinha.
Descemos o paredão quase que surfando na água da chuva, continuamos correndo paralelo ao rio, ouvindo o som grave das águas em turbilhão, levando tudo que insistia em atrapalhar o caminho. A ponte resistia bravamente. Passamos a pé, devagar, pois já se inclinava no sentido correnteza.
Pronto, estávamos a salvo.
Procuramos o abrigo de um bar que ficava próximo a barragem. Foi quando um barulho forte decretou o fim da ponte. A água começou a passar por cima e pelos lados, fazendo a ponte desmontar sob o próprio peso. Cinco minutos nos separou do fim da ponte. Fomos os derradeiros a cruzá-la.
Parte da cidade foi destruída, uma calamidade, mas eu não cheguei atrasado em casa. Dona Nenzinha reclamou apenas das minhas roupas molhadas, um rapazinho de treze anos não deveria ficar pelas ruas, como um moleque, tomando banho de chuva. Dona Nair deu o remédio de Everaldo com as reclamações habituais. Escapamos do pior.
Depois da cheia vieram os banhos no sangradouro com os amigos, as namoradas e as festinhas regadas a vinho de jurubeba e peixe frito na fogueira. O rio sempre presente, entrava com a água e o peixe. Bom amigo.
A cheia de 1977 foi o último momento de glória do Bitury, depois minguou vítima da poluição e do uso irracional dos seus recursos.
Mas não fico triste, sei que não morreu, está adormecido. Qualquer dia, outra chuva daquelas irá acordá-lo. Quando acontecer quero estar vivo para ir ao sangradouro da Barragem Nova dar pessoalmente as boas-vindas:

- Seja bem-vindo no seu regresso, velho amigo.

Sei que irá correr pelo seu velho leito e Belo Jardim terá que devolver tudo o que ocupou.
Não tenho pena da cidade, serei graciosamente advogado de defesa do rio, finalmente, amigo é pra essas coisas.

4 comentários:

João disse...

Homi deixe de mentira que eu fiz uma pesquisa e constatei que essa ponte caiu dois anos antes da enchente da barragem, carcomida por cupins!!!!
bom causo, abs

Cláudio Cabral disse...

Rarará!
Que maldade João.

Rogério Leite disse...

QUer dizer que a história foi lorota foi? hehehe... e eu acreditando! Darias um bom cronista. Ficou ótimo o texto!

Anônimo disse...

Voce tem boas lembrancas do Bitury heim?? uma pena que tanto a cidade como o Bitury se acabou... espero, como voce mesmo diz, que um dia o Bitury acorde :)